sexta-feira, maio 15, 2009
A insanidade e a crença platônica na indiferença
Ela anda suspirando pelos cantos. Não consegue mais disfarçar seu olhar vago. Em segredo, ela vê durante todos os minutos do dia uma cena que deseja, ardentemente, que aconteça. A cena em que ele, finalmente, olha para ela. Uma vez que fosse, bastaria. Já tentou de tudo, menos aproximar-se dele. Anda fazendo maluquices. Segue-o por todos os cantos, sugando-o com os olhos. Investiga-o por inteiro. O tom de voz, as cores da roupa, as amizades, os gostos. Não o conhece, mas já sabe de todos os seus segredos. Ultimamente, ela passou a apelar. Furou os pneus do carro dele ontem de manhã. Só para vê-lo em agonia. À tarde, deu umas riscadelas na lataria. Só para vê-lo em tormento. Hoje deu um jeito de quebrar um dos vidros. Adentrou o carro como se estivesse em um parque de diversões. O alarme ensurdecedor. Em um gesto suave e calmo, gargalhou ao colocar a mão embaixo do banco. Os CDs terminaram riscados, quebrados e espalhados. Satisfeita, pôs-se a esperar atrás de algumas árvores. Só para vê-lo com raiva e revolta. Enquanto esperava, sentia uma aflição quase incontrolável. Era como se tivesse feito tudo aquilo com o próprio rosto dele. Com sua identidade. Com sua indiferença. Foi então que aconteceu. O dono do carro, confuso, chegou. Olhou para ela no canto e perguntou-lhe se tinha visto alguma coisa. Ela gaguejou ao dizer que havia acabado de chegar. Foi quando caiu em si. Não era quem esperava que fosse. Na verdade, não sabia o motivo daquelas provocações ou quem pretendia atingir. Não sabia o porquê de estar ali. Não sabia sequer como tudo aquilo havia começado. Perdida em sua própria mente, fechou-se em perguntas para as quais não havia resposta. Apenas desespero. E dor. Muita dor.
terça-feira, maio 05, 2009
Cinderela, adolescência anos 90 e a anatomia da tristeza
Anda chorando em segredo. Por fora sua aparência engana, sustenta-se firme e com ar indiferente. Por dentro desmorona. Sente uma angústia que vai do estômago em direção à garganta, que derrete as células com um gás ácido e insalubre. Deseja gritar. Não quer enxergar aquilo que está a sua volta. Cria teorias em sua mente sobre a fonte de sua tristeza angustiante e passional. Tem a sensação clara de que o amor lhe escapa entre os dedos, que os dias parecem não querer continuar para sempre ensolarados. Quer encontrar a razão desse desespero. Busca-a fora de si. Deve haver outra. Ou outras. Serão mais bonitas? Mais agradáveis? Sente ira e tristeza. Profunda tristeza. Um buraco que carrega desde a sua tenra infância. Uma ferida que parece não querer cicatrizar. Uma dor que a persegue, que afasta seus sonhos e apodrece seus ideais. Sua respiração é quase inexistente. Tem um nó na garganta. Sente dores no baixo ventre. A umidade lhe magoa. O frio piora suas sensações. Agora já entende algumas coisas que antes lhe eram obscuras. Vem de uma geração que precisou recuperar a melancolia para ter a certeza de que está vivendo alguma coisa que pode se chamar de autêntica. Mas esse final sorumbático não é o que almeja. Longe disso. Essa atitude taciturna esconde um romantismo sem precedentes. Um romantismo de doer os ossos. Crê piamente que o amor é a origem de toda a felicidade. E perdida na busca de si mesmo, esconde-se no mito que mais deixou marcas em sua alma: o da gata borralheira. Em seu silêncio sofrido, do alto de sua torre, espera ansiosamente que seu príncipe encantado vá resgatá-la das garras de uma bruxa malvada.
quinta-feira, outubro 23, 2008
Mil pedacinhos
Ela ouviu as palavras. Martelavam na sua cabeça. Por quê? Incompreensível. Ela não conseguia achar motivos razoáveis. Não parecia lógico. Não se encaixava. Não parecia ser ela. Não era ela. Mas era. E aconteceu. E a destruiu. Aquela velha história. Corações que se quebram. A tempestade veio e o dilúvio tomou conta. Palavras desconexas hermeticamente guardadas insistiam em sair. Duelo. Náuseas. Choro. Falecimento. Trégua. Calmaria. Tristeza. Apenas tristeza. Tristeza profunda. Levantou e saiu pela porta. Foi para casa. Escovou os dentes. Pegou um livro. Deitou as páginas em seu colo. Respirou fundo e olhou bem à sua volta. Colocou o pijama. Apagou a luz. Deitou-se na cama. Estava viva, mas se sentia morta na maior parte do tempo. Seu coração de fato estava destruído. Tentava apenas dizer a si mesma que tudo ficaria bem. Talvez agora não devesse pensar em mais nada. Fechou os olhos e dormiu. Às vezes a chuva pode ser amarga.
segunda-feira, setembro 29, 2008
Sobre como voar
Estava sentada no banco da praça, sob o céu estrelado, olhando para o nada. Não estava ali. Viajava por lugares desconhecidos, por mistérios a desvendar, por sonhos a serem realizados. Notava que sua vida parecia vir de um roteiro de filme inacabado. Cada segundo parecia ter um impacto relevante para determinar o caminho a ser seguido. Pensava em surpresas, em cenas infinitas, em desejos implícitos, em diálogos estimulantes. Sentia-se como a película marcada pela luz, que revela paisagens indescritíveis, que provoca sensações impensáveis, que imprime na efêmera existência humana as mais doces memórias. O silêncio se quebrou. Logo ali, um punhado de pássaros barulhentos, disputando o último farelo de pão. O vôo insólito havia terminado. De pronto, soube. Voar é um estado de espírito. Envolveu-se de uma serenidade admirável. Sorriu. A segunda estrela à direita insistia em brilhar mais forte. Naquela noite, decidiu perseguir o brilho incessante até o amanhecer.
terça-feira, setembro 02, 2008
Contradição inquisitória
As perguntas às vezes são muitas, mas se calam no íntimo. Insípidas, querem explorar algo dormente. Aquilo que permanece incógnito no vazio pretérito. Querem saber o porquê de algumas coisas incompreensíveis. Ou talvez de uma específica. Daquele dia. Ou talvez por que ele falou que nunca mais iria procurá-la. Querem saber ainda mais. Se ele gostaria de perguntar também. Se o silêncio dela significa indiferença. Se algumas palavras são ditas dissimuladas em mágoa. As perguntas insistentes são diversas, mas todas elas sem importância aparente. Guardam um quê de curiosidade masoquista. Estão ligadas à incerteza de apostar alto em algo que se acredita. E no medo pavoroso de que isto se desmorone. São interrogações que tornam frágeis os laços de cumplicidade. Almejam serem satisfeitas, porém temem a tormenta que podem provocar. Aguardam inquietas por serem insignificantes. Tentam destruir a beleza do que é. Mas que, comparadas a isto, desfalecem. O brilho da viagem as obscurece. O pensamento se alegra da vertigem e todas as perguntas perguntam-se: afinal, por que ainda estamos vivas?
sexta-feira, agosto 22, 2008
Peace of mind – don’t assign me yours
A cabeça dá voltas. O tempo pára, de maneira retrógrada. Você custa a acreditar. Você não quer acreditar. Exatos dois meses atrás a vida virava de pernas para o ar. Maravilhosa e intensamente. No instante em que se fez exatos dois meses tudo ruía. O sonho de um abraço tornou-se um beijo gelado em uma boca qualquer. Os olhos olharam retinas estranhas. A pele sentiu o calor alheio. Não há porquês razoáveis. Há apenas o egoísmo. Falta de consciência. Falta de respeito por algo que se dizia sublime. E o símbolo daquilo estampado no peito. Contudo, esqueceu-se. Você sabia que algo assim aconteceria. Mesmo assim, você foi. Indo, encontrou amigos. Você foi avisado do que seria um erro. Mesmo assim, insistiu. Fez. Você pensou nisto no outro dia. Silenciou. Preferiu não se abrir. Preferiu que outras vozes dissessem. Você foi covarde. Você optou pela irracionalidade quando precisava pôr os pés no chão. Você pirou. Enfureceu-se. Fez besteira. Ao menor sinal de sofrimento. Isso significa uma coisa ou outra. Mas significa também que você optou pelo não-sentimento. Sim, você foi covarde. Você não quis enfrentar os fantasmas. Quis extravasar. Só que acabou rachando o cristal precioso. Agora está ali, estático. Nada faz. Permanece na inércia. Se o que sente é sublime, não sei do que chamar a desesperança. E os minutos da vida passam por aí. E, como diria Nietzsche, abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos.
"Too many guys think I'm a concept, or I complete them, or I'm gonna make them alive. But I'm just a fucked-up girl who's looking for my own peace of mind; don't assign me yours." (Clementine In Eternal Sunshine of the spotless mind)
"Too many guys think I'm a concept, or I complete them, or I'm gonna make them alive. But I'm just a fucked-up girl who's looking for my own peace of mind; don't assign me yours." (Clementine In Eternal Sunshine of the spotless mind)
domingo, julho 13, 2008
Aniquilação sentimental
Esqueça que eu existo. Vá embora. Nunca mais se aproxime. Tudo o que você era não passa de ilusão severa, que esmigalhou o ingênuo coração. A dor transformou-se em raiva. A raiva transformou-se em ódio. E o ódio, meu ordinário ninguém, virou a casaca e resolveu amigar-se com a indiferença. Provou, e resolveu que é mais doce optar pelo não-amor. Pelo não-sentimento. Você agora não passa de um não-qualquer. Você agora só receberá meus 'nãos', com uma única exceção: o foda-se.
terça-feira, fevereiro 12, 2008
Medos doeM
Destilei minha indiferença por você nos arredores da selva de concreto. Os ares passaram, as nuvens vieram, mas a chuva com medo nem caiu. As flores, contudo, ficaram mais vivas e me falaram de seu anseio secreto: seu coração é triste, carente, solitário, e tem medo de ficar vazio. Você me avisou, me disse que não confiasse em você. Mas eu disse que confiava, que achava que podia você merecer. E a verdade que cala é que seu coração é de pedra, tão frágil quanto a pétala. As flores são belas, o inverno é quente, a chuva é doce, o vento é quietação. Você corre em busca da felicidade aonde ela menos lhe espera. Seu semblante é a máscara, seu amor é oculto, e seu medo é prisão. Os medos, amor, às vezes são imperceptíveis, às vezes doem amanhã. Mas ser escravo do medo dura para sempre. Daqui vejo as dores desalmadas, ininterruptas. Mas vejo você, vejo os beijos, vejo os braços e abraços. Vejo os olhares perdidos, vejo as palavras não ditas. Vejo também outras coisas que me são incompreensíveis...
terça-feira, dezembro 11, 2007
_Me_ - A Ressureiçao ou ainda Bad carma é foda
Ok meu amores. Aqui estou! Morrendo de sono, claro. Como sempre. Algumas coisas nunca mudam. Mas outras sim. Nem que seja no sentido físico da palavra. Então. Me mudei. Grande coisa, notícia velha. Mas como faz uns dois anos que não escrevo aqui, devo informar aos que não foram ainda informados, que agora moro na Itália. Mais precisamente em Milão.
E essa semana foi de incursões no submundo vip milanês (esses dois vao ser os ultimos acentos que eu vou por, porque ir no google achar palavras com acento pra dai colar aqui é muito cansativo - exceto o e com acento que ja vem com acento no teclado daqui pq existe em italiano também). E eu definitivamente estou ficando - se ja nao estou - velha demais pra isso.
Sexta passada resolvi sair com uma bicha, mas bicha mesmo, até o ultimo fio de cabelo loiro tingido e, meio contrariada, fui parar na zona das baladas dos ricos e famosos de Milao. Chegando la eu percebi um cara escondido atras de uma arvore, com uma camera com aquelas lentes looongas. Achei estranho. Cheguei a achar que ele estava me fotografando. Louca, por certo. Eu nao percebi que o cara escondido-na-arvore-com-a-lente-longa era na verdade um paparazzo! E claro que nao tinha um papparazzo no meu encalço...
A luz so veio no momento em que eu vi um dos principes de Monaco, que eu tinha conhecido uma semana antes, porque - preparem-se, frase do tipo tia da prima da amiga da minha prima a caminho - uma amiga minha esta de namorico com um alemao que estuda com ele e, fofoca, nos contou que o menino ja pegou umas 500 dependencias na faculdade porque chega todo dia cheirado. Com efeito, ele tem cara de marginal e nao de principe. Bem, assim que o principe/marginal estava passando por mim, o paparazzo sai correndo de tras da arvore e vai colocando a lente na cara do menino, que a esta altura ja tinha claramente percebido que aquilo nao era so uma arvore, mas sim uma arvore + cara + camera + lentes longas. O principe corre e se refugia em um bar. De cheirados famosos, claro.
Depois dessa cena bizarra entramos num bar mais bizarro ainda. O barman, mais cheirado que o principe, dançava, nao servia. Nao tinha pista de dança, mas todo mundo nao parava quieto. E no meio disso tudo tinha a bicha loira que estava comigo e que nao parava de pedir bebida e pagar por elas. Ai é como se diz, bebida de graça é dificil de recusar e eu fui bebendo. Aparentemente até cair, porque no dia seguinte eu acordei sem poder colocar o pé esquerdo no chao. Sabe aquele osso da joanete? Entao, tava doendo demais. Fiquei com medo de ter quebrado e pior, nao tenho a minima idéia do que aconteceu. Alias, ta doendo até hoje. E eu ainda nao lembro o que aconteceu.
Passei mal o resto do final de semana e ontem uma aluna minha me puxou no canto. Ela trabalha pra uma revista e sempre tem convites para coisas. E pelo jeito poucos amigos. Ela me convidou para uma festa, e depois de uma pausa dramatica nao longa o suficiente para dar tempo de eu recusar, me disse que eu nao podia dizer para ninguem sobre a festa pq era uma festa privada, com poucos convidados e que - outra pausa dramatica, mas dessa vez menor - ia ter uma surpresa. Eu tava cansada, nem queria ir em festa, mas eu fiquei curiosa, né? Pouco tempo depois ela me mandou uma mensagem no celular com o nome e endereço do lugar onde ia ser a tal festa e depois de uma pesquisa na internet eu descobri que ia ser num antigo tunel da estaçao central de trem. Foi ficando bom o negocio. Ai fui pra festa, me arrastando, mas fui.
Chegando la, depois de ter quase sido estuprada e atropelada no caminho - estaçoes centrais sao estaçoes centrais em qualquer lugar do mundo - descobri que era a festa de aniversario do filho do dono da Diesel e que o menino gostava muito de uma banda, entao eles tinham conseguido fazer com que a banda tocasse como presente de aniversario.
Ai eu continuei me arrastando, mas ja me empolguei mais. E a curiosidade piorou, pq a aluna nao me contava qual banda era. Ai a minha imaginaçao foi longe, pensei em varias bandas e em todo e qualquer devaneio que eu tive na hora foram com bandas que eu conhecia. No momento da empolgacao nao passou pela minha cabeça que eu poderia nao conhecer a banda misteriosa... Ai entramos e depois de esperar uma hora no meio de modelos altas e modelos lindos, mas todos inexoravelmente incapazes de conversas inteligentes, ou de reparar em uma menina com uma altura de 164 cm e outro grupo distinto, formado por pessoas mais feias e que me fizeram me perguntar "sera que ninguém contou pra eles que os anos oitenta acabaram quase 20 anos atras?", chegou o momento da banda. Que eu nao conhecia. E nao gostei muito. Na verdade eu nao entendo essa cena rock/eletronica europeia. Quando eles tocavam so com a bateria, baixo, guitarra e voz eram muito bons. Mas tinham longuissimos intervalos entre as musicas com aquela formacao, quando eles tocavam musicas puramente eletronicas, daquelas de rave. E as pessoas feias com roupas anos 80 e os modelos bonitos dançavam como pessoas de rave. E eu, obvio, fiquei com raiva. Mas de toda forma, levei o show e a experiencia na boa, afinal o lugar era inusitado e os musicos eram gatinhos.
Depois desse resumo nao tao resumido da minha ultima semana seria normal achar que minha vida amorosa esta indo de vento em popa. Pois nao esta. Saindo do forno so um fora, mas esse é matéria de outro post). Eu cheguei a conclusao que eu devo ter sido a maior vadia na vida passada e estou pagando com estiagem amorosa nesta. Bad carma é foda.
E essa semana foi de incursões no submundo vip milanês (esses dois vao ser os ultimos acentos que eu vou por, porque ir no google achar palavras com acento pra dai colar aqui é muito cansativo - exceto o e com acento que ja vem com acento no teclado daqui pq existe em italiano também). E eu definitivamente estou ficando - se ja nao estou - velha demais pra isso.
Sexta passada resolvi sair com uma bicha, mas bicha mesmo, até o ultimo fio de cabelo loiro tingido e, meio contrariada, fui parar na zona das baladas dos ricos e famosos de Milao. Chegando la eu percebi um cara escondido atras de uma arvore, com uma camera com aquelas lentes looongas. Achei estranho. Cheguei a achar que ele estava me fotografando. Louca, por certo. Eu nao percebi que o cara escondido-na-arvore-com-a-lente-longa era na verdade um paparazzo! E claro que nao tinha um papparazzo no meu encalço...
A luz so veio no momento em que eu vi um dos principes de Monaco, que eu tinha conhecido uma semana antes, porque - preparem-se, frase do tipo tia da prima da amiga da minha prima a caminho - uma amiga minha esta de namorico com um alemao que estuda com ele e, fofoca, nos contou que o menino ja pegou umas 500 dependencias na faculdade porque chega todo dia cheirado. Com efeito, ele tem cara de marginal e nao de principe. Bem, assim que o principe/marginal estava passando por mim, o paparazzo sai correndo de tras da arvore e vai colocando a lente na cara do menino, que a esta altura ja tinha claramente percebido que aquilo nao era so uma arvore, mas sim uma arvore + cara + camera + lentes longas. O principe corre e se refugia em um bar. De cheirados famosos, claro.
Depois dessa cena bizarra entramos num bar mais bizarro ainda. O barman, mais cheirado que o principe, dançava, nao servia. Nao tinha pista de dança, mas todo mundo nao parava quieto. E no meio disso tudo tinha a bicha loira que estava comigo e que nao parava de pedir bebida e pagar por elas. Ai é como se diz, bebida de graça é dificil de recusar e eu fui bebendo. Aparentemente até cair, porque no dia seguinte eu acordei sem poder colocar o pé esquerdo no chao. Sabe aquele osso da joanete? Entao, tava doendo demais. Fiquei com medo de ter quebrado e pior, nao tenho a minima idéia do que aconteceu. Alias, ta doendo até hoje. E eu ainda nao lembro o que aconteceu.
Passei mal o resto do final de semana e ontem uma aluna minha me puxou no canto. Ela trabalha pra uma revista e sempre tem convites para coisas. E pelo jeito poucos amigos. Ela me convidou para uma festa, e depois de uma pausa dramatica nao longa o suficiente para dar tempo de eu recusar, me disse que eu nao podia dizer para ninguem sobre a festa pq era uma festa privada, com poucos convidados e que - outra pausa dramatica, mas dessa vez menor - ia ter uma surpresa. Eu tava cansada, nem queria ir em festa, mas eu fiquei curiosa, né? Pouco tempo depois ela me mandou uma mensagem no celular com o nome e endereço do lugar onde ia ser a tal festa e depois de uma pesquisa na internet eu descobri que ia ser num antigo tunel da estaçao central de trem. Foi ficando bom o negocio. Ai fui pra festa, me arrastando, mas fui.
Chegando la, depois de ter quase sido estuprada e atropelada no caminho - estaçoes centrais sao estaçoes centrais em qualquer lugar do mundo - descobri que era a festa de aniversario do filho do dono da Diesel e que o menino gostava muito de uma banda, entao eles tinham conseguido fazer com que a banda tocasse como presente de aniversario.
Ai eu continuei me arrastando, mas ja me empolguei mais. E a curiosidade piorou, pq a aluna nao me contava qual banda era. Ai a minha imaginaçao foi longe, pensei em varias bandas e em todo e qualquer devaneio que eu tive na hora foram com bandas que eu conhecia. No momento da empolgacao nao passou pela minha cabeça que eu poderia nao conhecer a banda misteriosa... Ai entramos e depois de esperar uma hora no meio de modelos altas e modelos lindos, mas todos inexoravelmente incapazes de conversas inteligentes, ou de reparar em uma menina com uma altura de 164 cm e outro grupo distinto, formado por pessoas mais feias e que me fizeram me perguntar "sera que ninguém contou pra eles que os anos oitenta acabaram quase 20 anos atras?", chegou o momento da banda. Que eu nao conhecia. E nao gostei muito. Na verdade eu nao entendo essa cena rock/eletronica europeia. Quando eles tocavam so com a bateria, baixo, guitarra e voz eram muito bons. Mas tinham longuissimos intervalos entre as musicas com aquela formacao, quando eles tocavam musicas puramente eletronicas, daquelas de rave. E as pessoas feias com roupas anos 80 e os modelos bonitos dançavam como pessoas de rave. E eu, obvio, fiquei com raiva. Mas de toda forma, levei o show e a experiencia na boa, afinal o lugar era inusitado e os musicos eram gatinhos.
Depois desse resumo nao tao resumido da minha ultima semana seria normal achar que minha vida amorosa esta indo de vento em popa. Pois nao esta. Saindo do forno so um fora, mas esse é matéria de outro post). Eu cheguei a conclusao que eu devo ter sido a maior vadia na vida passada e estou pagando com estiagem amorosa nesta. Bad carma é foda.
terça-feira, outubro 30, 2007
O amor e a incompreensão
No começo, tudo é mil maravilhas. Vocês entendem todos os suspiros, todos os olhares e todos os gestos um do outro. É incrível a compreensão que vocês têm, considerando-se que a cada coisa não-dita há dez beijos e uma troca de olhares profunda, sem piscar os olhos. Até que vocês precisam trocar palavras. E não palavras não-ditas, que vocês inconscientemente balbuciavam de forma incompreensível em meio aos suspiros, gestos e olhares. Palavras únicas e fortes. Você diz uma, ele responde com outra e tudo parece estar indo bem. Até que vocês precisam trocar frases. E não frases com palavras soltas, embora marcantes, como aquelas que vocês utilizaram em meio aos gestos, olhares e suspiros. Frases que façam sentido, que possam ser absorvidas pelo ser amado. Você fala algo, ele responde, você fala novamente e ele concorda, ou vice-versa. Até que vocês precisam argumentar um com o outro. Agora não basta dizer uma frase apenas, é preciso dizer muitas e com o devido fundamento ideológico. Você se expressa, ele não entende, você elabora, ele não compreende, você disserta, ele perde a paciência, ou vice-versa. Os suspiros são substituídos pelas bufaradas, os gestos pelos sinais de desacato e os beijos pelas provocações. Até que alguém ache que isso é pura incompatibilidade de gênios. Mas isso também pode ser amor ardente. E verdadeiro. Amor perdido em meio à linguagem, a grande fonte dos desentendimentos.
quarta-feira, agosto 22, 2007
O Telefone
Você está lendo aquele texto chato, mas necessário. Necessário para passar os minutos menos apreensiva. Ou mais. Levanta de cinco em cinco minutos como se tivesse algum tique nervoso. Daqueles que contaminam tudo e todos. Verifica toda a fiação existente na casa, não importa se ela está conectada ao que lhe interessa. Lê mais alguns parágrafos e as palavras insistentemente se recombinam em sua mente. Tudo o que você lê parece possuir um "tê", três "ês", um "éle", um "éfe", um "ó" e um "ene". Você até escuta "trim-trim" vindo das páginas à sua frente. A cada conjunto de palavras, você percebe repetições que revelam números insidiosos. Números que apontam um destino inevitável: o teclado do telefone. Você resiste. Afinal, você não o vê somente há algumas horas. Se você ligar agora, ele vai acabar pensando que você é uma espécie de maníaca. Você se concentra e tenta se controlar. Trinta dolorosos minutos se passam. Agora as palavras parecem estar carregadas de ironia. Todas têm "érres": a primeira letra do nome dele. Imagine, então, se a "Leidi Murphy" estivesse sentada ao seu lado. O telefone toca. Você dá um grito. Susto, claro. Você não esperava por isso. Sorri e atende, com a voz mais meiga do mundo. Totalmente cheia de amor para dar. Do outro lado da linha, o Caco, seu vizinho de sete anos, perguntando se seu irmão mais novo pode sair para brincar de rolimã na rua...
quinta-feira, agosto 09, 2007
Daqui a pouco OU In a little while
Sim, você está no Cebola Roxa. Não, você não veio parar em um clone barato. Este se trata do verdadeiro, do legítimo blog das almas atormentadas por problemas de relacionamento, TPM e afins. Calma, não vamos encerrar o blog! Ao menos não por enquanto. Durante algum tempo, ainda, vocês lerão com prazer, ou desprazer, as nossas palavras cósmicas e despretensiosas. Nossas palavras de alento e desespero. Nossas palavras de emoção e esperança. Acima de tudo, nossas palavras carregadas de dor-de-cotovelo, TPM e afins... Daremos um breve intervalo para atualizarmos nosso lay-out (nada de grandes modificações), e já já retornaremos. Aguardem.
quarta-feira, agosto 01, 2007
"LESS BRAWN AND MORE BRAINS... IS IT POSSIBLE?" ou "PROCURA-SE RHETT BUTLER DESESPERADAMENTE"
Estou cansada de homens domináveis, sem personalidade, sem opinião, superficiais, sem questionamentos filosóficos, sem sonhos ou ideais. Quero conteúdo, quero gentileza, quero amor à moda antiga, galanteios, romance, quero um cavalheiro, um companheiro, um amante, um alguém interessante, diferente, inebriante, quero uma pessoa com quem possa dividir meu tudo e meu nada. Mais importante ainda, que ele não seja perfeito. Nem queira ser. Perfeição, além de totalmente inexistente, platônico, é irritante, e torna-se rapidamente detestável. Nada mais abjeto que um ser que se julga, ou que seja, de algum modo, próximo à perfeição. Ninguém é perfeito. E é aí que está a beleza. Ame a imperfeição, porque é dela que se sente falta, porque, no fundo, é ela que nos faz apaixonar, que nos fascina sem que tenhamos consciência disso. É a imperfeição o segredo pelo qual desejamos desvendar alguém, e no qual tentamos enquadrar a perfeição. O que é imperfeito é intrinsecamente sedutor. Intensamente adorável. Perfeitamente apaixonante.
terça-feira, junho 12, 2007
Soneto da paz amorosa
Estar sereno
É brincar na chuva
É esperar pelo beijo
De nega maluca com trufa
É permanecer calado
Mas sentir-se completo
É estar separado
E querer ficar perto
É desejar na chuva molhado
E quando beija o céu encantado
Arrepiar-se por inteiro.
É estar alegre enquanto triste
É estar certo de que existe
Esse tal de amor verdadeiro.
É brincar na chuva
É esperar pelo beijo
De nega maluca com trufa
É permanecer calado
Mas sentir-se completo
É estar separado
E querer ficar perto
É desejar na chuva molhado
E quando beija o céu encantado
Arrepiar-se por inteiro.
É estar alegre enquanto triste
É estar certo de que existe
Esse tal de amor verdadeiro.
segunda-feira, junho 11, 2007
Recado ao vazio contemporâneo
Você não é nada. Você não é ninguém. Você não passa de um vazio perdido na chuva, sem sequer sentir o gosto das gotas que escorrem pelo seu rosto desconhecido. Você vive uma vida de mentiras, agarra-se em ilusões fúteis e acha que está enganando aos outros. Mas você só engana a si mesmo. Um dia a vida lhe ensina que não se deve viver ao redor do umbigo. Que a vida é mais do que aquilo que se passa em sua cabeça pequena, em seu ego inflado, em seu narcisismo refratário. Você acha que nada lhe atinge. Isola-se em sua covardia individualista, imaginando estar imune a tudo e a todos. Mas você não está. E vai chegar a um ponto em sua vida que verá que tudo o que viveu foi uma grande mentira. Ou então que você deu valor às coisas e pessoas erradas. E será tarde demais.
Ao vazio contemporâneo, se deseja encher-se de vida, que o faça imediatamente. Acorde. Não fuja da magia. Não transforme em tragédia o beijo doce, apaixonado e inocente. Permita-se sentir sem entrar em pânico. Acalme seu coração e viva tudo o que há pra viver. Sinta o que há pra sentir, sem medos. Permita que os outros vejam o que há dentro de você. Seja alguém. Alguém de verdade. Alguém que vive a vida, e não simplesmente a vê passar. Alguém que sonha, mas está acordado. Alguém que ama sem pretensões. Alguém que sente o sempre, e espera o nunca. Alguém cujo tempo é quando.
Ao vazio contemporâneo, se deseja encher-se de vida, que o faça imediatamente. Acorde. Não fuja da magia. Não transforme em tragédia o beijo doce, apaixonado e inocente. Permita-se sentir sem entrar em pânico. Acalme seu coração e viva tudo o que há pra viver. Sinta o que há pra sentir, sem medos. Permita que os outros vejam o que há dentro de você. Seja alguém. Alguém de verdade. Alguém que vive a vida, e não simplesmente a vê passar. Alguém que sonha, mas está acordado. Alguém que ama sem pretensões. Alguém que sente o sempre, e espera o nunca. Alguém cujo tempo é quando.
segunda-feira, junho 04, 2007
Bons sonhos
Hoje odeio que te amo; amanhã não sei. Hoje pensei que me queria; amanhã talvez. Hoje pedi que me procure; amanhã quem sabe nem te olhe. Hoje queria porque queria; amanhã minha vontade é história. Hoje sentia saudade; amanhã não te quero mais. Hoje fui santa e pura; amanhã serei cruel e voraz. Hoje fingi que esqueci; amanhã vou fingir que lembrei. Hoje te olhava de longe; amanhã nem perto estarei. Hoje me esqueça, amanhã me beija, e, depois, acorde.
quinta-feira, maio 24, 2007
Time machine
Ele estava ali, bem na sua frente. Naquele café que vocês se beijaram pela primeira vez. Fazia muito frio. O ar gelado contrastava com a luz do sol brilhante e o céu azul turquesa. Coincidentemente, você estava usando aquele casaco longo de couro e lã que ele adorava. Você estava linda e confiante. Será que ele a estava seguindo? Parecia que sim. Ele estava batendo a perna no chão, como fazia quando estava ansioso. Você estava doida para ir atrás dele, mas queria ele no chão só mais um pouquinho. Só para que ele implorasse. A oportunidade era agora ou nunca. Você deu um sorriso maroto, levantou-se, empinou o nariz, fez cara de má, colocou seus óculos escuros chiquérrimos e começou a caminhar como se estivesse em uma passarela. Deslumbrante. Estava decidida. Esbarrou com um pouco de força, mas graciosamente, no braço dele. Soltou um suspiro de dor e surpresa, abriu a boca para um sonoro "ai", virou o rosto de lado, jogou os longos cabelos negros e cintilantes para trás, colocou a mão nos óculos e os inclinou para cima, de modo que seus olhos perfeitamente contornados de preto ficassem minimamente visíveis. "É você?", disse. Recolocou os óculos. "E eu achando que hoje o dia estava ótimo... acabou de ficar péssimo.", continuou. "Que cara é essa, de cachorro perdido? Está sozinho?", perguntou com desprezo, embora estivesse com vontade de agarrá-lo. "Na verdade, não.", ele falou. "Agora estou com você...", ele completou. Antes que o sujeito pudesse abrir a boca para completar a frase, você emendou: "Ah, mas a sua sorte vai durar pouco. Eu já não lhe falei que não o quero de volta? Você já não está cansado de ficar correndo atrás de mim? Já não lhe disse que não aceito suas desculpas furadas? Que você não significa nada para mim?". Aquelas palavras saíram do fundo de seu coração ferido. Disse tudo aquilo com um ar superior, enquanto disfarçava o misto devastador de ódio e paixão que invadiam seu corpo. Ele abriu os olhos, abaixou a cabeça, deu um sorrisinho de lado e calmamente repetiu: "Agora estou com você, porque você fez questão de levantar a bunda daquela cadeira ali (apontou com o dedo) e vir aqui esbarrar, de propósito, em mim. Mas, na verdade, eu estava esperando a Gigi...". Ele olhou atrás de suas costas e você se virou. A Gigi era uma loira esguia, com um sorriso impecável e toda simpática (daquelas que fazem você ficar com raiva). "Gigi, venha cá!", ele falou. "Gigi, essa aqui é uma conhecida... hmmm, me desculpe... como é mesmo o seu nome??". Você queria matá-lo. Você não conseguia esconder sua respiração afoita. Sua ira. Sua vontade de gritar e sair correndo. Sua vontade de grudar nos fartos cabelos loiros da Gigi e arrancá-los todos. Você cerrou os lábios, engoliu o orgulho, virou as costas e saiu. Quase em disparada. Totalmente humilhada. Se arrependimento matasse, você já estaria em estado de putrefação. Foi quando seu salto ficou preso em um bueiro e você caiu. Caiu direto em seu próprio corpo, deitada no sofá. Aliviada, decidiu que da próxima vez que o visse, iria fechar os olhos, respirar fundo e contar até dez. Estava tudo claro agora: cabeça fria seria a melhor solução até que alguma mulher desesperada finalmente inventasse uma máquina do tempo.
quinta-feira, maio 03, 2007
Extra!!! Extra!!!
Nessa altura do campeonato, os leitores assíduos já sabem que o Cebola Roxa leva o nome do ingrediente principal de uma simpatia. Também já devem saber que essa simpatia, feita com uma cebola roxa, foi utilizada em um passado remoto pela idealizadora do Cebola Roxa (essa que vos fala). Além disso, se não sabem, deveriam saber que essa simpatia me foi dada por uma (pasmem!) cartomante, que não conseguiu ler carta alguma porque eu não parava de chorar (sem comentários). Para minha sorte e para testar a minha falta de fé, a simpatia deu mais-que-certo. Assim, o Cebola Roxa tem (convenientemente) o nome de uma simpatia para aquelas pessoas que não conseguem tirar a desilusão amorosa da cabeça. Como achei que esse poderia ser o caso de muitos de nossos leitores, resolvi revelar a "receita mágica" contra os problemas de relacionamento (fora ler o Cebola). Se esse é o seu caso, anote aí:
- Compre uma cebola roxa;
- Retire delicadamente a casca seca que envolve a superfície da cebola, de modo que ela fique mais lisa (atenção: não vá "desfolhar" a pobre da cebola... é só para tirar o excesso de casca velha);
- Pegue uma caneta e escreva, em toda a extensão da superfície da cebola, o seu nome e o nome da pessoa pela qual você não quer mais sofrer (já era tempo de passar uma borracha nesse turbilhão, não é??);
- Cave um pequeno buraco em terra fértil;
- Antes de plantar a cebola, segure-a firmemente em suas mãos, olhe para ela (como se estivesse falando com ela) e repita três vezes: "Cebola Roxa se responsabilize por meu amor pelo(a) ...[Nome do(a) fulano(a)]...;
- Plante a Cebola;
- E, pronto!!!
Aquele aperto no coração (quando você pensa na pessoa), aquele frio na barriga (quando você vê a pessoa) e aquela angústia (de quem está gritando por dentro "Volte para mim") irão embora no prazo de três dias. Se a Cebola Roxa brotar e florescer, ele(a) irá lhe procurar algum dia e vocês irão voltar (se você assim o desejar). Caso contrário, essa pessoa representou uma etapa na sua vida com a qual você deveria aprender. Não precisa nem dizer o quê aconteceu no meu caso: por que você acha que resolvi nomear o blog de "Cebola Roxa"?!
- Compre uma cebola roxa;
- Retire delicadamente a casca seca que envolve a superfície da cebola, de modo que ela fique mais lisa (atenção: não vá "desfolhar" a pobre da cebola... é só para tirar o excesso de casca velha);
- Pegue uma caneta e escreva, em toda a extensão da superfície da cebola, o seu nome e o nome da pessoa pela qual você não quer mais sofrer (já era tempo de passar uma borracha nesse turbilhão, não é??);
- Cave um pequeno buraco em terra fértil;
- Antes de plantar a cebola, segure-a firmemente em suas mãos, olhe para ela (como se estivesse falando com ela) e repita três vezes: "Cebola Roxa se responsabilize por meu amor pelo(a) ...[Nome do(a) fulano(a)]...;
- Plante a Cebola;
- E, pronto!!!
Aquele aperto no coração (quando você pensa na pessoa), aquele frio na barriga (quando você vê a pessoa) e aquela angústia (de quem está gritando por dentro "Volte para mim") irão embora no prazo de três dias. Se a Cebola Roxa brotar e florescer, ele(a) irá lhe procurar algum dia e vocês irão voltar (se você assim o desejar). Caso contrário, essa pessoa representou uma etapa na sua vida com a qual você deveria aprender. Não precisa nem dizer o quê aconteceu no meu caso: por que você acha que resolvi nomear o blog de "Cebola Roxa"?!
terça-feira, abril 03, 2007
Sobre o tempo, essa inexorável grandeza relativa (e o amor)
Piscou os olhos. Andou pela casa, como se a tivesse visitado em um passado distante. Achou estranho a flor não estar fresca. Havia murchado. Olhou o vaso, irriquieta, pensando ter esquecido da água. Estava muito calor. Matou um botão de rosa, por esquecimento. Sua mãe iria ficar irritadíssima. Afinal, sua obrigação, além de estudar, era também de cuidar das plantas da casa. Por sua culpa, a rosa vermelha estava agora em tom de carmim envelhecido, como um papel enrugado pela chama do fogão. Não se conformava. Lembrava perfeitamente de ter colhido a rosa no jardim de sua vizinha e tê-la colocado no vaso, linda e juvenil. Olhou pela janela. Seria muita cara de pau buscar outra flor no jardim alheio. Foi caminhando em direção à porta, hesitante. Parecia estar esquecendo de mais alguma coisa. Estava vestindo uma camisa esquisita, que não era exatamente sua. Ficou um pouco surpresa. O sono deve ter sido realmente muito pesado. Sorriu. A noite certamente foi boa. Sentou-se na sala, disposta a lembrar o quê tinha acontecido. Foi quando notou um porta-retrato novo em cima da mesa. Era de um senhor grisalho, de ótima aparência. Achou-o parecido com alguém, mas não sabia dizer quem. Sua mãe deveria conhecê-lo. Ou seu pai. Perguntaria a eles depois. Colocou o porta-retrato no lugar. Havia um envelope ao lado. Resolveu abri-lo. A carta já estava rasgadinha na borda. Alguém já o devia ter aberto. Por um momento, hesitou em ler o que estava escrito. Puxou a carta, mesmo assim. Seu nome aparecia como destinatário. Aparentemente, um exame de laboratório. Não sabia ao certo. Muitos números juntos. Ao final, uma frase inacreditável: “expectativa de vida em dois dias, dez horas, trinta e quatro minutos e vinte e um segundos”. Só poderia ser uma piada. Olhou a data. Primeiro de abril de dois mil e setenta e nove. Claro que era uma piada. Por curiosidade, olhou o relógio. Eram dez e quatorze da manhã. Deu uma gargalhada nervosa. Devia ser obra de seu irmão. Ele adora fazer piada com todos. Decidiu ir até a floricultura. Se tivesse sorte, poderia voltar com uma nova rosa antes de sua mãe chegar do trabalho. Subiu as escadas até o quarto. Estava ofegante. Abriu o armário. Procurou uma calça jeans, mas não encontrava nenhuma. Talvez estivessem para lavar. Pegou um vestido qualquer e colocou-se diante do espelho. Levou um susto. Quase morreu do coração. Não reconhecia seu próprio rosto. Será que havia trocado de corpo com alguém? Será que seus óculos estavam assim tão sujos? Aproximou-se do espelho. Reconheceu seu olhar. De repente, um nó na garganta e uma vontade súbita de chorar. Emocionou-se. Estava velha. Sua pele não possuía mais o viço de antes. Deu-se conta que o corpo também não era o mesmo. Colocou o vestido, mesmo assim. Perfumou-se. Passou batom. Pôs seus brincos de brilhantes, uma pulseira de ouro e diversos anéis, dos quais gostava. Não se conformava por não ter percebido antes. Por não ter feito aquela viagem naquele ano. Por não ter dito aquilo que queria em certa ocasião. Por não ter feito aquilo que desejava fazer em um determinado dia. Às dez e trinta e quatro morreu, sentada na poltrona de seu quarto, em frente à janela. Estava abraçada àquele porta-retrato, cuja fotografia antes não havia reconhecido. Seus últimos pensamentos foram doces. Estava contente por ter lembrado do único e grande amor de sua vida. Daquele senhor simpático e grisalho. Dos filhos que tiveram. Dos episódios tristes e alegres. De sua felicidade grandiosa juntos. E de seu anseio em juntar-se a ele, algum dia, entre as nuvens brancas do céu e o negro infinito do universo.
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