domingo, dezembro 05, 2010

Dor-de-cotovelo ou "This love has taken its toll on me"

[take its/their/a toll
If something takes its/their/a toll, it causes suffering, deaths or damage]

Já não ama mais. Ama. Já não espera mais. Vai atrás. Já não respira mais. Morre. Já não sente mais. Dorme. Já não quer mais. Deseja. Já não suspira mais. Chora. Já não vive mais. Sonha. Já não pensa mais. Age. Já não entorpece mais. Molesta. Já não se importa mais. Acontece. Já não perturba mais. Acalma. Já se foi mas não sabe. Amor mal-resolvido.

sábado, outubro 16, 2010

Eu, eu mesmo e a fragilidade dos laços amorosos

Estávamos lá, conversando na boa. Eu, você, nosso casamento recente, cervejinha, música ao vivo, tudo perfeito para uma noite incrível. Mas você tinha que estragar tudo. Você tinha que tentar me convencer de que uma viagem aos Estados Unidos, em sua companhia, seria boa. Você insistia em dizer que era bobagem querer visitar apenas alguns países da América Latina. Que era absurdo nunca pretender dar as caras na parte norte-americana do Novo Mundo. Que isso era uma visão limitada. Que tínhamos que visitar "a América", em toda sua plenitude. Quanta bobagem! Afinal de contas, quem é você na ordem do dia para me dizer qual viagem devo querer fazer? Veja bem, se você quer ir a lugares que não pretendo visitar, apenas vá e me deixe ir para onde desejo ir. Deixe-me com minhas convicções, que, diga-se, como bom companheiro e marido, você deveria prestigiar incondicionalmente. Isto é, não questionar. Em outras palavras, aceitar sem querer impor os seus valores na nossa relação. Se você não pensa igual a mim e nem pode aceitar o fato de que eu não quero compartilhar de seus gostos duvidosos, então você não serve para ficar ao meu lado. Se você não é meu espelho, não pode pretender que minha imagem reflita ao seu lado por toda a vida. Ora, essa irritante e frequente alteridade sua está me fazendo pensar em divórcio! Tá aí, essa é uma possibilidade...

quinta-feira, setembro 09, 2010

Vestígios sobre a incondição feminina ou a crueldade dos contos-de-fadas

Às vezes não entendia o porquê de ser tão inconstante. Pensava que eram os hormônios, o ciclo vicioso da TPM, a crise de abstinência de sei-la-o-quê. Podia ser um pouquinho de todas essas coisas. E era. Mas não a causa principal. Com o desenrolar de algumas crises, passou a compreender que havia uma insegurança enorme dentro de si. Colossal mesmo. Daquelas de estremecer os fundamentos psíquicos. Ninguém desconfiava disso, porque isolava tudo dentro de seu universo interno. Ou não. E, por vezes, essa retenção toda explodia. Sentia-se burra demais, fraca demais, gorda demais, depressiva demais. Percebeu, com muito custo, que não se tratava tanto de insegurança. Mas de medo. Brutal mesmo. Daqueles que só a morte é capaz de apaziguar. Dentre muitas outras coisas, tinha medo do abandono, da doação incondicional, de se machucar, de ser rejeitada. Era tão calejada que nunca concebeu viver o dia da princesa, com que toda menininha sonha. Aquele em que a mocinha é conduzida pelo altar em direção ao final feliz. Foi educada a ser forte, auto-suficiente, de certo modo masculina. Pensava que era tudo isso. Ou que podia ser. Contra todas as suas previsões, aquele dia encantado veio, mesmo que imperfeito. E, depois de muito apanhar de seu gênio incompreensível, de sua incondição subjetiva, imperfeição foi o que se escancarou em frente ao espelho, quando começou a se enxergar realmente. Era mesmo uma menininha, no pior sentido possível. Era absolutamente imperfeita, completamente imatura, terrivelmente insegura e profundamente medrosa. A ponto de reagir de modo desproporcional e exagerado ao mínimo estímulo negativo em sua direção. E eis que, em meio à sua guerra interna, à sua confusão existencial, achou-se presa mais uma vez ao mito dourado do príncipe salvador. Que iria resgatá-la das garras de sua própria auto-flagelação, ou de sua absoluta ignorância. Não, donzela. Acorde de seu sono profundo, deixe de lado seus sapatinhos de cristal, corte suas longas tranças, desça de sua torre e marque uma consulta com o terapeuta. Imediatamente. E, de preferência, não deixe a dieta para segunda-feira. A partir de hoje, coma aquelas suculentas maçãs vermelhas ao invés desse chocolate insípido da Kopenhagen.

terça-feira, julho 27, 2010

O fim impossível ... ou A inexorável esperança despedaçada

Já sinto as náuseas me adoecerem,
Já sinto o gosto das lágrimas,
o grito de dor,
a efervecência do vômito em minhas entranhas.
Porque sinto que não mais és meu,
Porque sinto que não mais me amas.
E agora me restam apenas palavras
duras, amargas e sombrias,
únicas testemunhas do meu pranto,
do meu horror,
da minha profunda aniquilação.
Quisera eu hoje não ter acordado,
não ter sentido,
não ter falado nada.
Quisera eu ser uma estátua,
parada, perfeita e bela.
Quisera eu nunca ter te amado,
porque nunca teria a certeza
de que te amarei para sempre.

segunda-feira, junho 21, 2010

QUAL O SEU TIPO DE HOMEM? - PARTE II

HOMEM HOMER SIMPSON
É o estereótipo do homem tosco e comum. Para ele a felicidade se resume a um copo de cerveja, um sofá, TV a cabo e rosquinhas. Possui uma personalidade do tipo inculta e medíocre, e é o retrato perfeito do “loser”. Se você ficou apaixonada por um tipo assim, minha filha, seja feliz, pois vocês se merecem. Afinal, a ignorância é a mãe de todos os coices. O lema deste tipo de homem é “Se algo é muito difícil, desista. A moral é, então, nunca tentar fazer nada”.

HOMEM DON JUAN
Vulgo “Ricardão”, é o amante por excelência e acha que pode envenenar todas as mulheres com seu charme e poder de sedução. É um dos tipos mais perigosos, podendo causar verdadeiros desastres sentimentais, com muito choro e melodrama. Empenha-se de forma inescrupulosa para ganhar o coração feminino, e quando o possui, perde o interesse e parte para a próxima conquista. No fundo, sofre de crises de amor-próprio, e o fato de pular de galho em galho o faz se sentir melhor consigo mesmo. Cura para este tipo, só se a cebola roxa der jeito. Seu lema é “Não há mulher alguma que não me inspire a amá-la”.

HOMEM JAMES BOND
Variação do tipo “Don Juan”, mas que, além de pular de galho em galho, pendura-se em vários ao mesmo tempo. É um infiel incorrigível, que utiliza as técnicas mais mirabolantes e inovadoras para conseguir mais uma para sua coleção de troféus. É tão charmoso e tão sedutor, que, se você estiver um pouco carente, pode ser presa fácil. E patética. Se não quiser se machucar, é melhor ficar longe dele. Esse nem cebola roxa resolve. Se servir de consolação, esse tipo freqüentemente sofre de complexo de bicha enrustida. Seu lema é “Acho que ainda não tive o prazer”.

HOMEM INDIANA JONES
Sempre pronto para uma aventura, ou várias ao mesmo tempo. Uma mistura de James Bond e de Rhett Butler, que possui ideais nobres, mas não perdoa quando tem alguma donzela dando sopa. É másculo, inteligente, mas não está disposto a ter compromissos sérios. Quer mesmo é desbravar o mundo e viver na superficialidade dos relacionamentos passageiros. Se você não fizer o tipo aventureira tolerante, esqueça esse homem. Seu lema é “Não fique sentimental agora. Guarde para quando eu realmente estiver longe daqui”.

HOMEM FORREST GUMP
Frágil, sincero e inocente, apaixona-se com facilidade, demonstrando tanta dedicação ao ser amado que a única explicação para esse comportamento é que tenha parafusos a menos. É uma variação do “Edward Mãos de Tesoura”, mas que, de tempos em tempos, sofre de crises de rejeição e se isola em seu mundo próprio, correndo estrada afora. Normalmente se sente atraído por mulheres fortes, por vezes insensíveis, que apesar de se compadecerem de seu amor incondicional, não o levam tão a sério, e raramente o assumem. Seu lema é “Mulheres são como caixas de bombons, você nunca sabe o que vai encontrar”.

sábado, maio 15, 2010

QUAL O SEU TIPO DE HOMEM? - PARTE I

HOMEM RHETT BUTLER
É o homem à moda antiga, e o homem dos meus sonhos. Atualmente em extinção, esse tipo é cheio de personalidade e sabe exatamente o que quer e como fazer para consegui-lo. Galanteador, sabe como ninguém deixar uma mulher totalmente apaixonada. Forte e impetuoso, ora domina, ora mostra ser frágil e apaixonado. É inteligente, confiante, gentil, franco, persistente, possui gosto refinado, sabe ser forte e decidido quando precisa e delicado quando necessário. Possui um forte senso de justiça e odeia a hipocrisia. Luta pelo que acredita pacientemente, mas pode desistir de tudo para reconquistar tudo novamente. Além de ser um verdadeiro gentleman, é o único homem capaz de dominar a mulher do tipo Scarlett O’Hara. Seu lema é “Você deve ser beijada freqüentemente e por alguém que saiba como fazê-lo”.

HOMEM TYLER DURDEN
Esse é o tipo considera a mulher como um objeto. Faz de tudo pra te levar pra cama, te usar, e segundos depois, nem se dá conta da sua existência. Tem uma incrível capacidade de ser cara-de-pau, indiferente, grosso, violento, um verdadeiro filho da puta. Conversa com ele, nem pensar. É normalmente de físico avantajado, boca-suja e ininteligível. Tem “insights” admiráveis sobre a complexidade da vida, mas não dá a mínima para ela, nem para quem a tem. O pior de tudo é que quase sempre esse tipo é um gostoso, e você não consegue se livrar dele tão fácil. É o preço que você paga por ter preferido o imediatismo. Se não acabar com o seu coração, acaba te matando mesmo. Seu lema é “Auto-ajuda é masturbação. Auto-destruição é a resposta.” Sua conclusão mais brilhante para a afirmação de que tudo é relativo é a seguinte: “Em uma linha de tempo longa o suficiente, a expectativa de sobrevivência de cada relacionamento cai para zero”.

HOMEM ARANHA
Possui um amor tão grande e tamanha dedicação à sua amada, que usa isso como desculpa para nunca ficar com ela ou assumi-la de vez. Não se sabe ao certo se tem medo de admitir que é um apaixonado esperançoso, ou um covarde sentimental. É um ser ligeiramente perturbado, que nunca consegue declarar seus sentimentos verdadeiros, nem ficar com a mocinha sem precisar utilizar disfarces para isso. Esse tipo nunca vai ficar com você, por mais que a ame. Esqueça-se dele e case com um rico bonitão, que seja fraco e dominável, e que satisfaça todas as suas vontades. Seu lema é “Grandes amores trazem grandes responsabilidades”.

HOMEM DARTH VADER
Inicialmente dá a impressão de ser o homem mais apaixonado do mundo, e diz-se capaz de lutar até a morte por seu amor. Sua fraqueza é se corromper pelo lado negro da Força, deixando tudo em segundo plano, inclusive sua própria identidade. Esconde-se atrás de uma máscara negra que o impede de sentir qualquer coisa que seja. Seu lema é “Tudo é insignificante perto do poder da Força”. Inclusive você.

HOMEM EDWARD MÃOS-DE-TESOURA
Este é o estereótipo do homem capacho. Fica tão patético e apaixonado que é capaz de fazer qualquer coisa para agradar a sua amada. Sofre de crises de ciúmes e de raiva, pois se julga ignorado, imperfeito e inadequado. É um tipo muito depressivo, que necessita cuidados constantes, muitas palavras de encorajamento e massagens de ego. Uma verdadeira mala-sem-alça. Seu lema é “Não posso abraçá-la, pois tenho medo de machucá-la, mas posso lhe fazer uma escultura de gelo se quiser”.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Sobre o magnetismo

Fitou ao longe os olhos daquele ser misterioso. Sabia quem ele era casualmente. Já havia trocado duas palavras despretensiosas com ele, encontrou-o diversas vezes em festas e reuniões, porém sempre de maneira superficial. Sentiu um calor inexplicável quando fechou os olhos e imaginou aquele rosto se aproximando. Ele estava vindo cumprimentá-la, embora estivesse sozinha. Aquela atitude a surpreendeu. Achava que ele convivia com ela por pura obrigação. Tinham amigos em comum, frequentavam as mesmas rodas. O acaso era a grande engrenagem de seu relacionamento quase inexistente. Ele disse 'oi' e ela respondeu timidamente, com os olhos fixos no chão. Não conseguia olhar no rosto dele. Ficaram em silêncio. Não sabiam se tinham alguma coisa em comum. Os tópicos de conversa entre eles eram limitados aos clichês. Ela sabia apenas que sentia uma atração inexplicavelmente sufocante em relação a ele. Algo animal. Como se bastasse agarrá-lo e beijá-lo e sabe-se-lá-o-quê até apagar aquela vontade inexorável, e pronto. Por isso talvez não conseguia ficar muito tempo ao seu lado. Era difícil controlar aquilo sem parecer doida varrida aos olhos dele ou de quem estivesse por perto. Quando estava a seu lado, perdia o rumo. Ficava ofegante. Era incapaz de construir uma simples argumentação. Como se ele fosse a kryptonita da racionalidade dela. Como se ele fosse o catalisador afrodisíaco de seus instintos femininos. Parada ali ao lado dele, ela se contorcia de desejo e se penitenciava por não poder fazer nada a respeito. Não cabia a ela essa iniciativa, pensava. Muitas amigas criticavam o seu modo romântico "à antiga". Não ligava. Ela era daquele jeito e nunca mudaria. Eles trocaram mais alguns resmungos, uns sorrisos tímidos, até que ele balbuciou alguma coisa. Ela, ansiosa, sinalizou para que ele repetisse o que tinha dito, ainda sem coragem de olhá-lo nos olhos. E ele a convidou para um cinema. Ela se derreteu. Aceitou. Começou a tramar diversas possibilidades em sua mente afoita, na esperança que ele sentisse ao menos um décimo do interesse que a consumia. Mal sabia a pobre que ele estava prestes a lhe arrancar o mais arrebatador dos beijos...

terça-feira, dezembro 01, 2009

Hipocondria

Sentia dores estranhas, inidentificáveis. Doía aqui, doía ali, doía lá. Dor difusa que parecia irradiar do coração. Sentia-se uma verdadeira vítima do acaso. Que maldade deste tal acaso! Estava planejando mudanças, revoluções e gritos de guerra. Mas nada fazia. Talvez uma ida ao médico pudesse melhorar tudo. Ou talvez pudesse se esconder em sua toca. Talvez se ninguém a visse, a dor poderia desaparecer. Esperava sinceramente que a ajuda de que precisava chegasse em um cavalo branco, espada em punho e disposta ao beijo do amor eterno. Do alto da sua torre de cristal, alternava entre a indecisão, a negligência e a inércia. Não queria perceber que de mitos ninguém nunca chegou a lugar algum. Que de contos de fada só vivem os grandes estúdios de cinema e The Happiest Place on Earth. Que nem a maior descoberta da ciência poderia aplacar a dor que sentia: o mais desesperador dos vazios.

sexta-feira, outubro 30, 2009

Da recalcada vindita

Às vezes queria sentar-lhe bofetões na cara, para liberar as mágoas que ainda guardava. Queria lhe fazer perguntas cretinas, melindrá-lo, bramir-lhe alguns impropérios. Fazer com que a lamúria estulta desaparecesse. E depois disso, iria deixá-lo. Isso não é hilário? Ora, cruzes, amava-o loucamente! Pois bem, de fato: o amor é um contentamento descontente.

domingo, setembro 13, 2009

Sobre formigas e ácaros

O negócio começou cedo. De um lado a formiga, cansada e mau-humorada. De outro, o ácaro, feliz da vida a cantarolar. Ela vinha de semanas de tensão, muitas palavras não-ditas (e malditas), muito rock’n’roll, muita bebida, muito descompromisso, enfim, perdida na vida. Mal sabia de sua condição de himenóptera. Uma total amnésia existencial. Foi quando deu de cara com o ácaro. Ele a chamou de formiga, emendando um glorioso 'bom dia'. Aquilo lhe parecia ultrajante. Como se atrevia o ácaro?? Ela logo o chamou de agente patológico, de aracnídeo mal-resolvido. Ele riu-se inteiro. Gostou dela. Ela, mesmo o achando insuportável, acabou por se render, depois de muitos esforços acarofílicos para combater aquela acarofobia toda. Mas ela deixava bem claro: 'ele é apenas meu fuck buddy, ouviu?!'. O tempo passou. A formiga, encantada com a acarodomácia que produzia a acarofilia entre eles, em seu leito verdejante, passou a corar quando lhe perguntavam sobre o ácaro. Pois bem, meus caros, não há outra verdade, embora a formiga não queira admitir: ela está mesmo apaixonada!!!

sábado, setembro 12, 2009

A canarinha

No fundo, bem lá no fundinho do seu coração, você diz que gosta de futebol só para parecer mais atraente para o sexo oposto. Ou então porque é louca por jogador de futebol (vai dizer que em 2006 não prestou atenção concentrada, em momento algum, nas pernas - e tudo o mais - do Alberto Gilardino?). Se mesmo assim você nega algum desses fatos, comece a considerar a possibilidade de que você joga no time errado. É inegável que os campeonatos regionais não são lá interessantes, ainda mais aqueles fora do eixo Rio-São Paulo. Os campeonatos nacionais, então, mais enrolados impossível. E tem a Copa do Mundo. Ah, a Copa. É quando você sai com aquela camisa da seleção (baby look, claro), coloca fivelinha verde-amarelo nos cabelos e até pinta as unhas de azul e branco. É nesta época que muitas de nós começamos a namorar. Você e suas amigas chegam naquele barzinho que transmitirá o jogo pelo telão, com direito a muita cerveja e diversos petiscos, arrumam uma mesa ao lado daquela recheada de gatinhos. Uma tática infalível, muito mais eficaz que a fantasia verde-amarelo-azul-e-branco, é saber quando e o quê falar sobre o jogo. Não existe homem que não fique doido por uma mulher que saiba do que se trata um impedimento. Que discuta com propriedade sobre a tática 4x4x2 em formato losango. Que identifique a formação de triângulos defensivos, tão característicos da marcação por zona. Que perceba quando o ataque deve ser feito em leque e a defesa em funil. Pois bem, você analisa o meio-de-campo e se coloca estrategicamente ao lado do zagueiro para evitar a marcação indesejada. Você identifica seu objetivo e vai atacando pelos flancos. Por fim, quando você passa bem atrás daquele fofinho lindo irresistível, o lance imperdível está passando na telinha. Ele está ali à sua frente, apreensivo, sem piscar os olhos. Você caminha graciosamente, chega ao lado dele e diz "Se agora já é emocionante, imagine em 1863, quando o sistema tático era 1x1x8... não entendo como eles conseguiam marcar impedimento naquela época!". Pronto. Ele (e você) perderam o gol. Todo mundo à volta pulou, comemorou, e vocês ali, um olhando para o outro. Você com um sorriso maroto. Ele, com a respiração presa e uma expressão de completo espanto. "Estou vendo que torcemos para o mesmo time", você fala para quebrar o gelo e aponta para a canarinha que ele veste, igualzinha à sua (exceto pelo fato de que a sua é baby look). Você dá uma piscada, mais um sorriso e vai para a sua mesa. Ele continua ali parado. O jogo acaba e o Brasil vence. O garçom se aproxima de você, lhe entrega um bilhetinho: "Será que a minha camisa e a sua podem torcer juntas no próximo jogo?". Você dá risada... é gooooooooooool! Depois que a Copa passar (e outras Copas virão), uma certeza: a sua canarinha vai continuar sendo jogada ao chão, em frente à cama, ao lado da dele.

sábado, setembro 05, 2009

Crise crônica insolúvel. Ou não. (como diria Caetano)

Querer explodir. Ficar na cama por horas, de maneira insípida. Sentir fome e ao mesmo tempo desejar não comer nada. Ser indiferente à própria aparência. Querer fazer e não achar fôlego, tampouco força. Lutar com a realidade. Esforçar-se para acordar. Sentir-se cansada depois de doze horas de sono. Querer escutar Bon Jovi. (Acredita?) Estar com tudo e achar que está sem nada. Ter a sensação de que nada faz sentido. Pensar que você pode ter perdido a graça. Dar risada e chorar em compassos de meio minuto. Desejar gritar quando de sua boca só saem grunhidos. Não entender bulhufas do que se passa com você mesmo. Normal. De repente, tomar sorvete. De chocolate. Com muita farofa de castanha de caju, leite condensado e tubetes. A cura de uma TPM é tão misteriosa quanto a própria existência.

quinta-feira, junho 11, 2009

Trocadilho

Estou escrevendo
para dizer-lhe uma coisa:
Nunca te amei.

Odeio você. Odeio os dias.
Odeio os pássaros, as palavras de amor.
Odeio as pessoas que andam abraçadas.
Odeio as lembranças. Odeio o nada.

Queria falar que você é passado.
Um espectro, um vento, um algo vazio.
Mas meu coração que hoje anda sombrio
ficou cego de amor, e ainda mais arredio.

Amo-te como o inverno odeia a primavera
que as árvores tão belas, insistem em presentear:
verde, flores e tudo o mais.

Amo-te como o verão odeia o frio,
como o pássaro odeia a tempestade,
e a mentira odeia a verdade.

Agora não amo mais.
Amo que te odeio.
Odeio que um dia posso te amar.

De tudo então restam-me as palavras,
únicas cúmplices e coniventes
do fato absurdo que ora se lê:
amarodeio odiamar você.

sexta-feira, maio 15, 2009

A insanidade e a crença platônica na indiferença

Ela anda suspirando pelos cantos. Não consegue mais disfarçar seu olhar vago. Em segredo, ela vê durante todos os minutos do dia uma cena que deseja, ardentemente, que aconteça. A cena em que ele, finalmente, olha para ela. Uma vez que fosse, bastaria. Já tentou de tudo, menos aproximar-se dele. Anda fazendo maluquices. Segue-o por todos os cantos, sugando-o com os olhos. Investiga-o por inteiro. O tom de voz, as cores da roupa, as amizades, os gostos. Não o conhece, mas já sabe de todos os seus segredos. Ultimamente, ela passou a apelar. Furou os pneus do carro dele ontem de manhã. Só para vê-lo em agonia. À tarde, deu umas riscadelas na lataria. Só para vê-lo em tormento. Hoje deu um jeito de quebrar um dos vidros. Adentrou o carro como se estivesse em um parque de diversões. O alarme ensurdecedor. Em um gesto suave e calmo, gargalhou ao colocar a mão embaixo do banco. Os CDs terminaram riscados, quebrados e espalhados. Satisfeita, pôs-se a esperar atrás de algumas árvores. Só para vê-lo com raiva e revolta. Enquanto esperava, sentia uma aflição quase incontrolável. Era como se tivesse feito tudo aquilo com o próprio rosto dele. Com sua identidade. Com sua indiferença. Foi então que aconteceu. O dono do carro, confuso, chegou. Olhou para ela no canto e perguntou-lhe se tinha visto alguma coisa. Ela gaguejou ao dizer que havia acabado de chegar. Foi quando caiu em si. Não era quem esperava que fosse. Na verdade, não sabia o motivo daquelas provocações ou quem pretendia atingir. Não sabia o porquê de estar ali. Não sabia sequer como tudo aquilo havia começado. Perdida em sua própria mente, fechou-se em perguntas para as quais não havia resposta. Apenas desespero. E dor. Muita dor.

terça-feira, maio 05, 2009

Cinderela, adolescência anos 90 e a anatomia da tristeza

Anda chorando em segredo. Por fora sua aparência engana, sustenta-se firme e com ar indiferente. Por dentro desmorona. Sente uma angústia que vai do estômago em direção à garganta, que derrete as células com um gás ácido e insalubre. Deseja gritar. Não quer enxergar aquilo que está a sua volta. Cria teorias em sua mente sobre a fonte de sua tristeza angustiante e passional. Tem a sensação clara de que o amor lhe escapa entre os dedos, que os dias parecem não querer continuar para sempre ensolarados. Quer encontrar a razão desse desespero. Busca-a fora de si. Deve haver outra. Ou outras. Serão mais bonitas? Mais agradáveis? Sente ira e tristeza. Profunda tristeza. Um buraco que carrega desde a sua tenra infância. Uma ferida que parece não querer cicatrizar. Uma dor que a persegue, que afasta seus sonhos e apodrece seus ideais. Sua respiração é quase inexistente. Tem um nó na garganta. Sente dores no baixo ventre. A umidade lhe magoa. O frio piora suas sensações. Agora já entende algumas coisas que antes lhe eram obscuras. Vem de uma geração que precisou recuperar a melancolia para ter a certeza de que está vivendo alguma coisa que pode se chamar de autêntica. Mas esse final sorumbático não é o que almeja. Longe disso. Essa atitude taciturna esconde um romantismo sem precedentes. Um romantismo de doer os ossos. Crê piamente que o amor é a origem de toda a felicidade. E perdida na busca de si mesmo, esconde-se no mito que mais deixou marcas em sua alma: o da gata borralheira. Em seu silêncio sofrido, do alto de sua torre, espera ansiosamente que seu príncipe encantado vá resgatá-la das garras de uma bruxa malvada.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Mil pedacinhos

Ela ouviu as palavras. Martelavam na sua cabeça. Por quê? Incompreensível. Ela não conseguia achar motivos razoáveis. Não parecia lógico. Não se encaixava. Não parecia ser ela. Não era ela. Mas era. E aconteceu. E a destruiu. Aquela velha história. Corações que se quebram. A tempestade veio e o dilúvio tomou conta. Palavras desconexas hermeticamente guardadas insistiam em sair. Duelo. Náuseas. Choro. Falecimento. Trégua. Calmaria. Tristeza. Apenas tristeza. Tristeza profunda. Levantou e saiu pela porta. Foi para casa. Escovou os dentes. Pegou um livro. Deitou as páginas em seu colo. Respirou fundo e olhou bem à sua volta. Colocou o pijama. Apagou a luz. Deitou-se na cama. Estava viva, mas se sentia morta na maior parte do tempo. Seu coração de fato estava destruído. Tentava apenas dizer a si mesma que tudo ficaria bem. Talvez agora não devesse pensar em mais nada. Fechou os olhos e dormiu. Às vezes a chuva pode ser amarga.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Sobre como voar

Estava sentada no banco da praça, sob o céu estrelado, olhando para o nada. Não estava ali. Viajava por lugares desconhecidos, por mistérios a desvendar, por sonhos a serem realizados. Notava que sua vida parecia vir de um roteiro de filme inacabado. Cada segundo parecia ter um impacto relevante para determinar o caminho a ser seguido. Pensava em surpresas, em cenas infinitas, em desejos implícitos, em diálogos estimulantes. Sentia-se como a película marcada pela luz, que revela paisagens indescritíveis, que provoca sensações impensáveis, que imprime na efêmera existência humana as mais doces memórias. O silêncio se quebrou. Logo ali, um punhado de pássaros barulhentos, disputando o último farelo de pão. O vôo insólito havia terminado. De pronto, soube. Voar é um estado de espírito. Envolveu-se de uma serenidade admirável. Sorriu. A segunda estrela à direita insistia em brilhar mais forte. Naquela noite, decidiu perseguir o brilho incessante até o amanhecer.

terça-feira, setembro 02, 2008

Contradição inquisitória

As perguntas às vezes são muitas, mas se calam no íntimo. Insípidas, querem explorar algo dormente. Aquilo que permanece incógnito no vazio pretérito. Querem saber o porquê de algumas coisas incompreensíveis. Ou talvez de uma específica. Daquele dia. Ou talvez por que ele falou que nunca mais iria procurá-la. Querem saber ainda mais. Se ele gostaria de perguntar também. Se o silêncio dela significa indiferença. Se algumas palavras são ditas dissimuladas em mágoa. As perguntas insistentes são diversas, mas todas elas sem importância aparente. Guardam um quê de curiosidade masoquista. Estão ligadas à incerteza de apostar alto em algo que se acredita. E no medo pavoroso de que isto se desmorone. São interrogações que tornam frágeis os laços de cumplicidade. Almejam serem satisfeitas, porém temem a tormenta que podem provocar. Aguardam inquietas por serem insignificantes. Tentam destruir a beleza do que é. Mas que, comparadas a isto, desfalecem. O brilho da viagem as obscurece. O pensamento se alegra da vertigem e todas as perguntas perguntam-se: afinal, por que ainda estamos vivas?

sexta-feira, agosto 22, 2008

Peace of mind – don’t assign me yours

A cabeça dá voltas. O tempo pára, de maneira retrógrada. Você custa a acreditar. Você não quer acreditar. Exatos dois meses atrás a vida virava de pernas para o ar. Maravilhosa e intensamente. No instante em que se fez exatos dois meses tudo ruía. O sonho de um abraço tornou-se um beijo gelado em uma boca qualquer. Os olhos olharam retinas estranhas. A pele sentiu o calor alheio. Não há porquês razoáveis. Há apenas o egoísmo. Falta de consciência. Falta de respeito por algo que se dizia sublime. E o símbolo daquilo estampado no peito. Contudo, esqueceu-se. Você sabia que algo assim aconteceria. Mesmo assim, você foi. Indo, encontrou amigos. Você foi avisado do que seria um erro. Mesmo assim, insistiu. Fez. Você pensou nisto no outro dia. Silenciou. Preferiu não se abrir. Preferiu que outras vozes dissessem. Você foi covarde. Você optou pela irracionalidade quando precisava pôr os pés no chão. Você pirou. Enfureceu-se. Fez besteira. Ao menor sinal de sofrimento. Isso significa uma coisa ou outra. Mas significa também que você optou pelo não-sentimento. Sim, você foi covarde. Você não quis enfrentar os fantasmas. Quis extravasar. Só que acabou rachando o cristal precioso. Agora está ali, estático. Nada faz. Permanece na inércia. Se o que sente é sublime, não sei do que chamar a desesperança. E os minutos da vida passam por aí. E, como diria Nietzsche, abençoados os que esquecem, porque aproveitam até mesmo seus equívocos.


"Too many guys think I'm a concept, or I complete them, or I'm gonna make them alive. But I'm just a fucked-up girl who's looking for my own peace of mind; don't assign me yours." (Clementine In Eternal Sunshine of the spotless mind)